sexta-feira, maio 19, 2006

O inter-texto poético: intervenções, fragmentos e vivências <<<<<<<

ou
UMA LEITURA SOBRE LEITURAS


Por Nívia Maria Vasconcellos

a cidade está no homem quase como a árvore voa no pássaro que a deixa
Ferreira Gullar


Dizem que tudo o que criamos não passa de uma mera repetição de algo que já foi dito, escrito, realizado algures... Sinto que, em parte, essa assertiva é verdadeira, mas a sua veracidade não tira a beleza, a riqueza – poderia dizer, até mesmo, a originalidade – do que está sendo feito, ou melhor, refeito. Baladas e Outros Aportes de Viagem corrobora isso por ser uma obra dupla que conduz em si uma intertextualidade com outros poetas e suas obras e com as próprias experiências vividas por seu autor.
Em, os “experimentos” de Silvério Duque promovem um passeio por bastantes temas e formas. Prenhe de epígrafes e dedicatórias, este livro faz alusão de maneira expressa às intervenções deliberadas que sofreu. Por vezes, essas menções formam leituras sobre leituras infinitamente. Em forma de terça-rima, estrutura muito bem utilizada por Dante Aligiere, na balada III (Balada para Betriz, que apresenta versos alexandrinos), por exemplo, Duque remete à Mira Coeli (referência de Jorge de Lima a Beatriz de Dante) e, concomitantemente, a própria Beatriz de Dante pela qual a obra de Jorge fora influenciada. Devido a esse constante relacionamento poético-temático com obras que, por sua vez, aludem a outras obras, podemos dizer que Baladas é um livro para iniciados, uma vez que a sua perfeita compreensão será lograda pelos que perceberem e souberem realizar tais analogias, o que os fará notar o diálogo que este excelente livro nos permite cumprir com personagens mitológicas, lendárias e poéticas (Helena, Beatriz, Enone, Medusa, Adriana, Inês) e com diversos autores da literatura feirense, brasileira e universal (Godofredo Filho, Antonio Brasileiro, Hilda Hilst, Bruno Tolentino, Alberto da Cunha Melo entre outros) quer seja pelo título, quer seja pelas epígrafes ou pelo próprio conteúdo das poesias. Não obstante, mesmo aqueles que não disporem de uma leitura prévia de tais poetas para tanto, poderão, por intermédio de Silvério, entrar em contato indireto com eles e, quiçá, despertarem a curiosidade em si de pesquisá-los e lê-los, o que faz de Baladas um livro que até mesmo incentiva a leitura de outros livros.
Em Outros Aportes de Viagem, por sua vez, o artista se encontra – ou busca esse encontro – em seu mundo (em seus mundos). O poeta é um andarilho que visita diversos lugares e pessoas que são incorporados a sua vida e que vão compondo a sua memória, o seu passado. Dessa maneira, a intertextualidade predominante se exprime por meio das recordações do que foi vivido e sentido. É um inter-texto que se manifesta entre as experiências do poeta e as poesias que elas inspiraram, ou seja, uma inter-relação entre o criador e a leitura (peço licença a Paulo Freire) que ele realiza do que circunda. O lirismo – que é supremo no livro anterior – nessa obra vem acompanhado por uma narratividade dramática que o faz mesclar os três gêneros literários e romper com quaisquer tentativas de sistematização ou classificação de suas composições ( o que fundiria as habilidades mentais do afamado estagirita). O gênero lírico se manifesta na medida em que Silvério canta cidades (Ipirá, Candeal, Ichu, Tanquinho, Conceição do Jacuípe, Aracy, Feira de Santana) para, por intermédio delas, exprimir suas emoções e sentimentos individuais (sinto Ipirá ao vê-la e ao pisar-lhe/ o chão como peregrino que sou de mim mesmo) carregados de subjetividade. Seu drama – o próprio Duque subintitula este livro como “experimentos dramáticos” – é afiançado pela ação constante que o autor – também uma das personagens de suas histórias – põe-nos em contato, é como se a cada poema o poeta realizasse suas falas, interpretando-nos um intenso solilóquio (Na casa velha de minha infância/as lembranças projetam dores/sobre este olhar perdido). Já o seu tom narrativo é garantido por ser ele um poeta em trânsito, um poeta-viagem que transita pelos lados do asfalto frio da estrada, a ver aquela caatinga enveredando-se a teimar com a Morte, a Serra, a casa velha, a cidade toda feita de saudades e tudo mais que a janela do ônibus e seus próprios passos permitiram-lhe contar por fazê-lo alcançar e sentir.
Absorvidos por essa viagem por espaços e por impressões, somos compelidos a reconhecer a erudição e elegância de Silvério Duque e a admitir o desafio que seus “experimentos” fazem a seus leitores. Esta é característica elementar pertencente a produções artísticas que pretendem ser notáveis: o desafio. As obras literárias não devem existir para agradar aqueles que as lêem, senão para instigar-lhes a sensibilidade e a inteligência. Como o próprio Silvério escrevera outrora a poesia deve dar um soco na cara do leitor. Sendo assim, purificados e de “olhos roxos”, nós – mais sublimes por termos entrado em contato com suas composições – encontramo-nos mais felizes e, inspirados pela vida, assim como nosso poeta, sorrindo para a morte e seus segredos.


Nívia Maria Vasconcellos nasceu em Feira de Santana, Ba, em 1980. Em 2002, publicou o livro de poesias Invisibilidade pelo MAC (Museu de Arte Contemporânea/FSA). Formou-se em Letras Vernáculas na Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS) em 2004. Atualmente cursa Especialização em Literatura e Diversidade Cultural na UEFS e, além de poetisa, é contista, ensaísta, professora de Literatura e participa do grupo de declamação OsBocasDo Inferno, com o qual já se apresentou em vários estados do Brasil.

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